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14 dezembro, 2006

Querido filho.

-No dia em que esteja velho e já não seja eu, tem paciência e tenta entender-me.
-Quando, todos comem e eu não conseguir; quando não puder vestir-me: tem paciência. Recorda as horas que passei a ensinar-te.
-Se, quando falar contigo, repetir as mesmas coisas mil e uma vezes, não me interrompas e escuta-me. Lembra-te que quando eras pequeno, na hora de dormir, eu tinha de te explicar mil vezes o mesmo conto repetidamente até teres sono.
-Não me envergonhes quando não quiser tomar banho, nem me ralhes. Recorda quando tinha de andar atrás de ti e as mil excusas que inventavas para não tomares banho.
-Quando vires a minha ignorância diante das novas tecnologias, e te pedir que me dês todo o tempo necessário, não me irrites com o teu sorriso amarelo. Eu ensinei-te a fazer tantas coisas... Comer bem, vestir-te... e como enfrentar a vida. Muitas coisas são produto do esforço e perseverança dos dois.
-Quando em algum momento perder a memória ou o fio à nossa conversa, dá-me o tempo necessário para me recordar. E se não puder fazê-lo não te enerves, seguramente o mais importante não era a minha conversa: a única coisa que queria era estar contigo e que me ouvisses.
-Se alguma vez não quiser comer, não me obrigues. Sabes bem quando necessito e quando não.
-Quando os meus membros cansados não me deixarem caminhar...dá-me a tua mão amiga da mesma maneira que eu te dei, quando tu começavas a dar os teus primeiros passos.
-E quando algum dia te disser que já não quero viver, que quero morrer, não te enfades. Um dia entenderás que isso não tem nada a ver contigo, nem com o teu amor, nem com o meu. Tenta entender que na minha idade já não é viver mas sobreviver.
-Um dia descobrirás que, apesar dos meus erros, sempre desejei o melhor para ti e sempre tentei preparar o caminho que tu havias de fazer.
-Não te deves sentir triste, enfadado ou impotente por me veres desta maneira. Fica ao meu lado, tenta entender-me e ajuda-me como eu te fiz quando tu estavas a começar a viver.
-Agora, toca-te a ti acompanhar-me no meu frouxo caminhar. Ajuda-me a acabar o meu caminho, com amor e paciência. Eu te pagarei com um sorriso e com imenso amor que sempre tive por ti.
Amo-te, filho.

O teu pai,a tua mãe, os teus avós...
«In memoriam». Todos recordam os pais e os avós de toda a gente.

1 comentário:

helena disse...

Caro Ceolino,
Cheguei até si via menina-marota.
Em boa hora aquela encantadora "menina" dá a conhecer pessoas e palavras tão doces, como é o caso.
A partilha é das coisas mais bonitas da vida!

O seu texto emocionou-me desde a primeira frase.
Sou mãe de quatro filhos e senti-o como se tivesse sido eu a escrevê-lo. Perdoe-me o abuso.

Um dia, todos nós , se as nossas capacidades o permitissem, se as nossa sensibilidade direccionasse as nossas vidas, também o escreveríamos.

Ousei, e por tal peço que me desculpe, copiar o seu texto (em quadriplicado) e oferecê-lo aos meus filhos no dia do meu próximo aniversário. Dizendo-lses, obviamente, que não é da minha autoria mas da sua. E convidando-os a visitar o seu blog.

Grata por esta partilha receba um abraço sentido .

Helena Domingues

http://orionix.blogspot.com/

ex helena pedro
http://www.sho-shana.blogspot.com/
(este em estado vegetativo)